
Fiquei de gravar um depoimento muito importante com a minha “vozinha” de 88 anos. Ela conta orgulhosamente e sem nenhum pudor a forma como chegou ao altar. Não foi usando as vias mais tradicionais para a época, mas foi a que julgou eficientemente necessária para efetivar um grande desejo. Corria o ano de 1949 quando ela, aos 27 anos, quase “moça no caritó”, se apaixonou por um jovem rapaz de olhos verdes, pele branca e espírito aventureiro.
Não sei explicar ao certo, mas os pais da moça não permitiam de forma alguma aquele namoro. Como realizar então aquele sonho quase impossível. O velho era irredutível. A minha futura avó disse que argumentou, procurou saber os motivos que faziam com que ele não quisesse que ela se casasse. Depois de repetidos resmungos e injustificáveis “nãos” ela concluiu: algo precisava ser tramado.
A única forma seria fugir. Mas uma fuga também não era assim tão simples. As filhas, naturalmente, não tinham a liberdade que hoje as meninas de 15 anos têm. Sair de casa só casada e de preferência ainda virgem. Quero dizer, contudo, que essa não era uma regra seguida á risca. “Danação” nunca foi privilégio dos “pós-modernos”. Mas minha futura avó juntamente com o meu futuro avô pensou em algo intermediário. Na minha cidade existia um padre especialista em casamentos feito às presas. Chamava-se Padre José Otávio. Ele mesmo se casou duas vezes, teve filhos, ficou viúvo e depois resolveu seguir o sacerdócio. Tornou-se famoso na região por realizar casamentos fast-food, às escondidas e durante a madrugada.
Conhecedores dessa valiosa informação os dois resolveram então tramar uma fuga e organizar um casamento antes do raiar do dia. Para isso tinham que contar com o apoio de pessoas confiáveis. Essas seriam os padrinhos e se encarregariam de facilitar a saída de casa à surdina, madrugada adentro. Cavalos e mulas foram selados. Portas abertas silenciosamente e passos matreiros ensaiados até que o perigo já não os atingia. Dezoito quilômetros de cavalgada até a cidade e tudo estava resolvido. Depois de casada, recebida a benção do padre, pai nenhum desmancharia casamento de filha.
Mas pagava-se um preço alto por tamanha ousadia. Minha avó foi praticamente expulsa de casa. O pai dela disse nunca mais querer vê-la. Não tomava a benção, não lhe dirigia uma palavra, tratava-a com indiferença, não lhe respondia sequer uma pergunta. E assim foi por longos anos. Nasceram os primeiros filhos e nenhuma visita. Ela havia deixado a comunidade em que morava e foi para outra comunidade vizinha. Disse-me que cansava a vista olhando a curva da estrada na esperança de ver o velho pai se redimindo. E foram longos dias em vão. E foram muitas lágrimas derramadas.
Por sorte, aquele que a “raptou”, cometendo junto com ela um dos mais elevados atrevimentos da época, assumiu toda responsabilidade de marido. Sempre esteve ali, do lado. Foi companheiro por mais de 40 anos, até o último dia de vida. Ela sempre caseira acostumada à simplicidade da vida na roça. Jamais se aventurou em longas viagens, certamente nunca pisou além da fronteira de seu Estado. Despossuída de grandes ambições. Vivendo sempre ali dentro das coordenadas de sua casa, cercada pelos filhos e pela proteção do esposo.
Mas o tempo que resolve todos os problemas é também muito cruel. Minha Vó, hoje viúva há 13 anos, vive sozinha numa casa imensa de nove cômodos. Enxerga pouco e quase não escuta nada. Às vezes fica chateada por não compreender o que os outros estão falando e achar que eles falam dela à revelia. Preciso cumprir a minha promessa. Tenho que gravar esse depoimento. Não quero que outros contem aquilo que ela narrava com tanto orgulho. Afinal quem é o autor de sua própria história?
* Jurani Clementino é cearense, graduado em Jornalismo, Especialista em Comunicação e educação, Professor universitário e cronista. Atualmente faz Mestrado em Desenvolvimento regional pela Universidade Estadual da Paraíba. Durante cinco anos trabalhou como produtor/editor do Jpb 1ª edição da Tv Paraíba, afiliada da Rede Globo em Campina Grande. Ensinou as disciplinas de radiojornalismo, jornalismo comunitário, telejornalismo e Técnicas de Reportagem e Entrevista na Faculdade do Vale do Ipojuca - Favip em Caruaru - PE. Foi colaborador das emissoras de rádio Lagar Fm (Campina Grande) e Rádio Cultura de Várzea Alegre - Ce.