A população católica do Juazeiro talvez (não) passe por uma pequena querela de consciência: a história da destruição do túmulo da beata Maria Araújo. É, é aquela mesma dos supostos milagres do Padre Cícero, quando a hóstia virava sangue em sua (dela) boca. Descendente de escravos, faleceu em 1914 e seu corpo foi enterrado na porta direita da igreja de Nossa Senhora do Socorro, onde também está o de Padre Cícero, falecido em 1934. A polêmica se deve a uma ordem do próprio bispo do Crato, em 1930, para destruir o túmulo e esconder os restos mortais da beata. Se foi nesta época, devem ter aproveitado a doença do padre que já estava velho e alquebrado como mostra uma foto no Memorial que leva seu nome. Digo que a consciência se divide, pois vi neste mesmo memorial um banner intitulado “A mulher sem túmulo” título de alguma peça ou obra literária.
Já na Igreja de São Francisco, a beata faz parte dos janelões de vitrais ao lado de Nossa Senhora. É emblemático seu status. No entanto, sua memória tem esta lacuna, não há túmulo. A Igreja cortava assim o fanatismo dos seguidores do Padre Cícero, então afastado das ordens sacerdotais. O padre, no entanto, criou um ritual paralelo, já que não podia dizer missas, que até hoje existe, a Renovação. Mas, da beata Maria Araújo, nada, além das fotos, onde se vê que era negra. O título de beata é popular e não canônico, portanto, nunca seria elevada a santa. Como agora existe um movimento para restituir as ordens ao padre, a beata teria outro lugar na hagiografia de Roma? Creio que não.
Maria se colocou inconscientemente entre uma Igreja que se romanizava, por um lado, e outra que se popularizava, desde Padre Ibiapina. Tampouco seria a primeira pessoa negra a seguir Padre Cícero e se destacar. Houve também uma tragédia quanto à resistência do beato Lourenço, também negro. O beato tomava conta de umas terras do padre e do seu garrote. Tinha muita influência junto aos camponeses que se juntaram neste sítio. Quando o padre morreu e deixou em testamento para os Salesianos, estes reivindicaram a terra, mas os camponeses não quiseram sair e foram expulsos sob bombardeios do Ministério da Guerra, morrendo centenas deles.
Mas, voltando à beata, um seu descendente (aparentado) o professor e historiador amador, Raimundo Araújo, diz que a beata sofreu muito: “Negra e analfabeta foi incompreendida e humilhada, mas suportou tudo com imensa dignidade, sem se rebelar, porque era uma religiosa extremamente virtuosa” (Jornal do Cariri, 31/8 a 6/9).
A beata desapareceu. Há até quem confunda com outra que ficou imortalizada na voz de Luiz Gonzaga: Minha santa/ Beata Mocinha... Provavelmente, jamais a Igreja aceitaria a beata Maria Araújo como santa. Não pelos milagres duvidosos, nem talvez pela cor, embora a cor tivesse de passar pelos rituais canônicos, já que há santos africanos. No entanto, a beata Maria, pelo que sofreu, deve ter sido mesmo uma santa. Pelo menos para os seguidores do Padre Cícero Maria Araújo é a santa do Juazeiro.